Diário de Maria featured

O Launge

maio 28, 2015Ricardo Santo


Maria entrou no Irish Bar do Parque das Nações pouco passava das 22:00h, estava em cima da hora combinada, vestia umas push-in secret de ganga escura e perna muito justa combinando com uma blusa branca semi transparente, com decote bem aberto, fazendo realçar o soutien de renda preto. Nos pés a sua última aquisição, umas extravagantes sandálias de lycra preta e salto agulha. A noite estava bastante agradável na capital, nada comparado com o tempo que se tinha feito sentir em Alverca durante todo o dia. Procurou por Sandra sem sucesso, ainda não tinha chegado, escolheu sentar-se na convidativa varanda, sentia necessidade de apanhar uma brisa no rosto. Pediu um café e uma garrafa de água fresca à empregada de piercing no nariz e retirou o telemóvel da bolsa. Um grupo de camones espanhóis fazia um alarido gigantesco enquanto conversavam, a quantidade de cerveja Guiness nas mesas falava por si. Os turistas espanhóis eram aos milhares por esta altura em Lisboa, pareciam formigas vagueando pelas ruelas e becos apertados. Na caixa de entrada uma mensagem por ler, Sandra pedia desculpa e confirmava que estava atrasada, como de costume. Maria já se acostumara aos sucessivos atrasos da amiga, nem valia a pena ficar chateada, já fazia parte. Aproveitou o tempo para deixar a sua mente regressar um pouco atrás no tempo, mais precisamente ao meio do dia, continuava totalmente desvairada com os últimos acontecimentos na Vila, aquele pedaço de mau caminho era homossexual, como lhe tinha escapado tal coisa? De facto nada o fazia prever, Gustavo com aquele corpo sensual e músculos bem definidos arrastava qualquer rabo de saia em três tempos mas, o primo tinha completamente deitado por terra os seus desejos de luxuria. O regresso da empregada de piercing acompanhada com o seu pedido fez Maria regressar ao presente meio sobressaltada.

- Peço desculpa mas és a Maria certo?
- Sim chamo-me Maria
- Pois, esse rosto é inconfundível mesmo com o passar dos anos
- Estás igualzinha, como é possível?
- Certamente não te lembra de mim, sou a Benedita, andamos juntas no colégio Saint Thomas
- Faz tanto tempo
- Lamento, não te estou a reconhecer
- Na altura tinha umas longas tranças mas não andávamos na mesma turma
- Pois, deve ser por isso, não estou mesmo a ver lamento
- Mas eu lembro-me muito bem de ti, eras muito popular na altura, Maria Atrevida
- Toda a gente no colégio te conhecia
- Gostei de te voltar a ver, infelizmente tenho de ir atender clientes
- Esperas companhia? Queres pedir mais alguma coisa?
- Sim aguardo companhia em breve
- Tudo a correr contigo então, até já, bom convívio
- Obrigado, para ti também, bom trabalho

Maria Atrevida, fazia muitos anos que não ouvia a sua alcunha do tempo de adolescente, já na altura a malandrice e o atrevimento eram características muito próprias, já enraizadas no seu corpo. Tentou relembrar quem lhe tinha colocado a alcunha mas em vão, a mente já não dava para tudo, tinham passado tantos anos mas, ao menos lembrava que tinha passado bons momentos no colégio Saint Thomas. Enquanto mexia o café observou Benedita a dirigir-se ao grupo de espanhóis. Não se recordava minimamente dela é um facto mas, era sem dúvida uma rapariga interessante, apresentava um rosto bonito, o corpo parecia estar bem cuidado por debaixo daquela farda, o cabelo castanho-escuro preso num rabo-de-cavalo mostrava-se bem cuidado, a pele semi bronzeada oferecia-lhe uma cor deliciosa, os seios arrebitados, mas foi um pequeno detalhe que saltou à vista desarmada, uma singela tatuagem ocupava parte do tornozelo direito, quase insignificante, um pequeno Pentagrama, uma estrela composta por cinco retas e que possuía cinco pontas, símbolo universalmente conhecido da união. Enquanto saboreava o café entre os lábios observou o jardim na sua frente, sombrio, árvores com os seus ramos esvoaçando com a brisa noturna da capital, sombras rodeando e cobrindo o espaço, alguns transeuntes aproveitavam para fazer jogging no seu interior mesmo aquela hora da noite, notou que Benedita a observava, sorrindo-lhe de forma cativante enquanto levantava uma mesa, respondeu involuntariamente sorrindo de volta. Finalmente captou Sandra a entrar pelo bar, apressada como sempre, em alvoroço, balburdiando palavras impercetíveis para o telemóvel, parecia bastante zangada e ligeiramente fora-de-si. Dirigiu-se à varanda, pousou a bolsa na pesada mesa de madeira e despachou o parceiro de conversa desligando-lhe o telemóvel na cara.

- Que se passa com estes gajos de hoje?
- Fogo que idiota chapado, quero que ele se foda
- Calma, que se passa Sandra?
- Desculpa lá amiga, não tens culpa nenhuma, já estou farta deste gajo
- Mas afinal que bicho te mordeu? Qual gajo?
- Tínhamos combinado passar a noite juntos, irmos dançar, divertir e acabou de se cortar
- Diz que não lhe apetece, está muito cansado do trabalho e não quer sair de casa, foda-se
- Queria-me divertir, sair, dançar, arranjei-me para a ocasião e tudo, que parvo
- Não fiques assim, arranjas um plano B, esquece
- Pois esqueço de certeza, este não me apanha mais com ele, já era
- Estou farto das merdas dele acredita
- Olha calma, chama a empregada, chama-se Benedita e pede alguma coisa
- Senta e acalma-te de uma vez
- Tenho uma para te contar que nem vais acreditar
- Nem sei por onde devo começar
- Conta-me tudo amiga...

Maria explicou todos os acontecimentos ocorridos na Vila, pormenor por pormenor, no mais ínfimo detalhe que se recordava do evento, desde o tórrido encontro com a dupla feminina, o sexo desenfreado no anexo da Tia Fernanda, terminando na desilusão do primo Gustavo, sacana de homossexual que lhe deixou a cona toda aos saltos e acabou por não a foder. Sandra de boca aberta com a história, incrédula com as descrições e com mais uma aventura sexual da amiga caída dos céus quando nada o fazia prever. Sem dúvida que Maria tinha um magnetismo qualquer para atrair situações inesperadas, já tinha perdido a conta ao número de situações peculiares. Penitenciou-se com uma ponta de inveja por nunca lhe acontecer o mesmo, raramente algo ousado e fora do comum se atravessava na sua pobre vida, Maria era sem dúvida uma sortuda por todas aquelas oportunidades todas. Foram interrompidas quando Benedita regressou com o pedido de Sandra, serviu o cappuccino, espalhou os pacotes de açúcar e com um movimento brusco deixou um pequeno cartão branco na mesa, no centro um Pentagrama negro brilhava de forma reluzente, somente tinha uma morada por baixo.

- Peço desculpa mas ouvi a conversa há pouco
- Estava bastante exaltada ao telefone
- Não pretendo ser metediça mas já que ficou sem companhia para esta noite e se gostam de diversão deviam equacionar visitar esse espaço
- É um lounge de convívio bastante agradável, algo seletivo mas certamente não terão dificuldades de entrar se forem as duas
- Fica na zona de Braço de Prata, zona calma e recatada, é diversão garantida
- Eu própria devo passar por lá quando sair do serviço
- Digam ao porteiro que são minhas convidadas
- Ele explica-vos as regras da casa
- Prometo que vai valer a pena, acreditem
- Será uma noite interessante
- Atrevam-se meninas

Maria e Sandra trocaram olhares cúmplices e desconfiados enquanto Benedita se afastava, as suas mentes já fervilhavam de intensidade com aquele surpreendente convite, sem dúvida que as tinha deixado com a curiosidade aguçada, enquanto na mesa o Pentagrama continuava a reluzir...


Continua...

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