Diário de Maria

A Vila VIII

agosto 08, 2014Ricardo Santo


Maria aproximou-se de Gustavo num claro intuito de literalmente o violar, não havia volta a dar, a decisão estava embrenhada na sua mente, sentia-se super eriçada por aquele corpo sensual de músculos bem definido que se tinha pavoneado na sua frente enquanto subiam as escadas. O desejo percorria-lhe as veias, a oferta de dois corpos femininos dentro do anexo tinha sido deliciosa mas, nada no mundo substituía a sensação de ter um caralho pujante a preencher-lhe as entranhas. Sentia uma vontade urgente em percorrer aquele pedaço de homem com a sua boca gulosa, serpentear a língua por cada saliência e perder-se por completo nos braços daquele ruivo. Ardia interiormente equacionando na mente as peripécias luxuriosas que os dois podiam viver nos próximos momentos, ia ser ali mesmo naquele amontoado de sofás usados que o ia devorar, estava mais que decidido. Estava bem colada no jovem primo quando este a afastou num gesto brusco, negando a sua investida ao mesmo tempo que deixava cair a tenda de campismo nos envelhecidos moisaicos do chão. Maria fitou-o com olhar de espanto, estava incrédula com a recusa, não esperava uma repulsa daquelas. Deu dois passos atrás sentindo um pequeno nervosismo a apoderar-se do seu corpo, entranhando-se. Gustavo fitou-a por uns segundos com aqueles grandes olhos claros, tão expressivos que deram logo a entender que os avanços dela seriam em vão.

- Peço desculpa
- Não, não tens de pedir
- Eu é que pensava, ou melhor não pensei, não sei…
- Desculpa a sério
- Não fiques preocupada, não foste a primeira
- Não te quero constrangida
- Fico agradado pelos teus avanços mas…
- Eu não tenho muita afinidade com o sexo feminino
- Se é que me entendes
- Pois estou a ver que não, és homossexual?
- Sim Maria sou Gay com muito orgulho
- A sério? Nunca pensei, não aparentas
- Não me escondo e há diversos anos que me assumi
- Tenho vivido aqui com a Fernanda e ela sabe da situação
- Valha-me Deus, a sério desculpa
- Até estou envergonhada com a situação
- Deixa para lá, tens aqui a tua tenda, eu agora tenho mesmo de ir
- Tenho aula de natação a seguir, não quero chegar atrasado
- Claro, pois sim a tenda, levo sim obrigado
- Agradece à Fernanda por mim, eu depois devolvo
- Sim não te preocupes

Descer o pequeno lance de escadas pareceu uma verdadeira eternidade a Maria. Estava completamente desvairada com os últimos acontecimentos, até o vestido lhe fazia comichão no corpo. Os degraus pareceram eternos, terminando no vazio, o seu corpo era conduzido em modo automático por uma mente inexistente, oca de raciocínio, assolada com tamanha queda, seriam necessários alguns dias para se recompor dos eventos naquela Vila. Despediu-se de Gustavo sem grandes demoras, já nem conseguia ter conversa para o rapaz, necessitava de abandonar o local o quanto antes. Colocou a tenda na bagageira no Opel Corsa e entrou apressada no veículo, notou de imediato que as suas pernas tremiam ligeiramente, o nervosismo imperava. Resolveu respirar fundo e aguardar alguns minutos para se recompor antes de regressar a casa. O céu estava cinzento na zona de Alverca e ameaçava chover na região ribatejana, pegou no telemóvel e seleccionou o contacto de Sandra, já não estavam juntas desde o Cinema. Após alguns segundos a chamada foi reencaminhada para a caixa de correio. Voltou a ligar mas o resultado foi o mesmo. Digitou rapidamente uma mensagem de texto: “Já tenho a tenda comigo, já podemos marcar viagem, bebemos café mais logo no sítio do costume? Vais ficar parva com o que me acabou de acontecer”.

Fim

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