Diário de Maria

O Encontro

junho 09, 2014Ricardo Santo


estranho desceu do metro na estação do Cais do Sodré pouco passava das 19:00h, o tempo continuava horrível com o Inverno totalmente preenchido com chuva na capital. Encaminhou-se para o frio de fim-de-tarde e iniciou a longa subida da Rua do Alecrim com destino ao Largo de Camões. Nunca gostou de fazer serviço nocturno no parque de estacionamento a um fim-de-semana, o seu turno preferido eram as manhãs calmas em vez da pulsante adolescência que iria invadia o local daqui a um par de horas e com o qual tinha de conviver. Puxou a gola do casaco castanho e forçou a subida a passo largo enquanto queimava um Lucky Strike, tinha de perder o vício quanto antes, a forma física desaparecia num piscar de olhos. Felizmente não chovia na altura, a penosa subida apresentava-se escura e fria, os antigos carris do eléctrico eram os únicos acompanhantes a sua escalada. O Largo de Camões apresentou-se ainda muito despido para um sábado, uns quantos camones meio perdidos, os habituais rostos sentados à beira da estátua e uns azafamados transeuntes a rondar a Padaria Portuguesa. O estranho chamou o elevador com um gesto simples, a caixa demorou a deslocar-se à superfície e vinha ocupada. Vislumbrou um rosto conhecido a emergir debaixo da terra entre as portas de vidro, a esplendorosa Madalena encontrava-se no interior.

estranho tinha conhecido Madalena em outra vida, quando estudava na Faculdade de Ciências. Lembrava-se que a morena vinha todos os dias de Sintra e costumava chegar atrasada às primeiras aulas do dia. Entrava sem fazer barulho, subia as escadas do auditório e sentava-se numa das últimas filas observando a plateia com os seus grandes olhos castanhos. Era uma mulher deverás interessante, hoje com os seus 35 anos possivelmente, tinha perdido o cabelo loiro que lhe era comum em tempos passados e apresentava-se agora com um castanho claro bastante vivo e cuidado. A silhueta não se tinha alternado, continuava a apresentar em boa forma física, um corpo cuidado e tonificado onde sobressaia um volumoso peito. Madalena vestia uma gabardine creme clara, justa ao corpo totalmente aberta. No interior o estranho conseguiu vislumbrar por segundos uma saia preta até perto dos joelhos e um camiseiro branco onde se observavam os traços de um soutien da mesma cor. Ao pescoço um longo colar castanho com pequenas pedras circulares em tons de vermelho, combinando com umas unhas de gel da mesma cor, elegantes por sinal. Para finalizar, o estranho observou uns sapatos pretos com um pequeno salto que a deixava ligeiramente mais alta que ele.

- Quem é vivo sempre aparece, soltou Madalena enquanto sorria
- Madalena? Que surpresa miúda. Olá como estás? Tens passado bem?
- Sim tenho, já lá vão uns anos valentes desde a última vez que nos cruzamos.
- Sem dúvida, nem consigo precisar quando foi, ainda andávamos na faculdade certo?
- Sim deve ter sido, acho que nunca mais te coloquei a vista em cima.
- Eu deixei a capital após a faculdade e mantive-me por Sintra, regressei há dias para iniciar uma nova aventura profissional.
- Estou muito entusiasmada com esta oportunidade.
- Mas olha desculpa, estou super atrasada para uma reunião, deixa-me dar-te o meu contacto, falamos mais tarde pode ser?
- Toma guarda o número, a sério desculpa, tenho mesmo de ir, liga-me...
- Beijinhos e até logo.
- Beijinhos.

Madalena desapareceu a passo rápido entre os transeuntes, corpo sensual percorrendo a calçada, cabelo esvoaçando pelo Largo de Camões. O estranho chamou novamente o elevador ficando alguns segundos a contemplar o pequeno cartão recebido, um cartão profissional de uma empresa de advogados, supostamente seria secretária numa firma com sede no Campo Grande. Guardou o cartão no bolso do casaco e entrou no elevador rumo ao piso -4, equacionou que iria ser uma noite aborrecida de trabalho sem qualquer companhia, o habitual parceiro de turno encontrava-se doente, teria de efetuar o trabalho dos dois. Enquanto o elevador descia vagarosamente avaliou qual seria a melhor hora para ligar a Madalena, possivelmente combinar um cafezinho, trocar dois dedos de conversa interessante. Tinha sido uma boa surpresa aquele encontro inesperado de final de tarde, o acaso tem destas coisas...

"A thousand times I tempted fate, a thousand times I played this game, a thousand times that I have said, today, today, today..."

Continua...

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4 comentários

  1. Girl With Tattoo

    Obrigado pela visita, ao estranho também lhe cheira algo, será que os cheiros são semelhantes?
    ;)

    Beijo

    ResponderEliminar
  2. Pareceram-me extremamente semelhantes ;)

    Bj Completo

    ResponderEliminar
  3. Girl With Tattoo

    O estranho certamente vai gostar desse cheiro...
    ;)

    Beijo

    ResponderEliminar

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