Diário de Maria

A Vila

março 14, 2013Ricardo Santo



Maria olhou-se no espelho pela última vez antes de sair de casa rumo à faculdade. Tinha terminado o seu demorado banho matinal, ainda sentia o corpo totalmente dorido dos acontecimentos do passado fim-de-semana. Os eventos da mansão ainda marcavam presença assídua na sua mente e tinham definitivamente tatuado o seu corpo. Observou-se cuidadosamente, cabelo volumoso castanho-escuro, muito encaracolado, rebelde e perdido pelas costas, sombra preta carregada envolvendo os seus olhos, vestido bicolor de malha da Mango bem justo ao seu sensual corpo, com alças e transparecendo um decote redondo em ambos os lados que realçava o seu peito volumoso. Na parte superior todo branco, na saia pelos joelhos sobressaia o preto com texturas às riscas. Tinha sido a sua última aquisição para a primavera que se aproximava. Na mão direita um pequeno casaco de ganga clara e já bastante usado da Stradivarius. Nos pés umas sandálias pretas com um pequeno salto, simples e elegantes que desencantou na Pepe Jeans, adorava andar de forma prática e descomplicada. Colocou o seu relógio favorito da Calvin Klein todo de prata e usou um dos vários perfumes que tinha à disposição. Sentiu o cheiro inconfundível do Miracle de Lancôme no ar. Pegou os óculos escuros na mala e abandonou o quarto descendo as escadas rumo ao rés-do-chão onde a mãe já se despachava para se encaminhar ao trabalho no Centro Comercial Vasco da Gama.


- Vens almoçar a casa?
- Não tenho a certeza, o mais certo é almoçar pela faculdade
- Não estou com pachorra para fazer comida
- OK então não te esqueças de passar na casa da tia Fernanda e trazer a tenda de campismo, ela disse que te emprestava quando quisesses
- Sim lembro, eu passo por lá, não preocupa
- Conduz com cuidado
- Não sei a que horas regresso
- Beijos
- Beijo


Maria saiu apressada de casa no Parque das Nações, enquanto caminhava com destino ao carro retirou o telemóvel da mala, 8:45h, nenhuma mensagem recebida. A aula de Biotecnologia Farmacêutica já tinha começado mas pouco se importou, estava à vontade com a matéria. Fazia precisamente quatro dias que tinha falado a última vez com o estranho na mansão e nem sinal de vida dele. Desejou ligar ao filho da puta mas rejeitou o pensamento, tinha de ser mais forte do que aparentava, era ele que estava em falta, o primeiro passo deveria ser da sua responsabilidade. Colocou os óculos escuros e entrou no veículo azul-escuro, no rádio ecoava o tema Alibi cantado por Jared Leto. Da mala retirou um gloss cor-de-rosa e deslizou pelos lábios que automaticamente lhe aumentou o volume. Rumou à faculdade com o sol incandescente incidindo sobre o seu rosto, sentindo a adrenalina a circular pelas veias, adorava conduzir e sentir o poder de controlar aquela máquina. Na sua mente o estranho pairava feito assombração, era impossível controlar aquele sentimento, não havia poder de controlo, aquele safado dava-lhe a volta à mente e deixava-a completamente do avesso. O que mais a danava era que ele sabia perfeitamente como o fazer, como jogar com ela, como a submeter aos seus desejos.


Maria espreitou pelo portão fechado pouco passava das 16:00h. A vivenda parecia abandonada, decadente, somente se escutavam os pássaros divertidos entre as árvores. A tia Fernanda morava na zona de Alverca nos arredores da capital, numa pequena vila, tinha escolhido sair da metrópole quando o marido faleceu refugiando-se na paz e sossego do campo. Trabalhava para o estado numa repartição de finanças e colocou de imediato os papéis para a reforça antecipada. Um pouco mais velha do que a sua mãe, devia andar na casa dos 65 anos mas ainda andava fresca e pronta para as curvas. Tinha tido dois filhos, não se recordava do nome do primeiro, sabendo somente que andava emigrado para a Suíça e o Gustavo, alguns anos mais velho do que ela, não se recordando a última vez que o tinha visto. Tocou à campainha mas parecia que não estar ninguém em casa, não lhe estava a agradar a ideia de regressar novamente em outro dia para recolher a tenda de campismo, o gasóleo não andava barato por estes dias. Decidiu contornar a vivenda espreitando do lado contrário onde se situavam os anexos, a piscina e os armazéns adjacentes, talvez estivesse alguém. Encontrou a porta das traseiras encostada, sendo quase imperceptível que se encontrava aberta a não ser na proximidade. Ousou invadir o recinto, fechando desta vez a porta atrás de si, a sua curiosidade era uma coisa por demais. Encontrou o espaço semiabandonado, com alguma falta de cuidado, vários pedaços de vasos quebrados espalhados pelo chão de cimento, relva por cortar e até algumas flores mortas seguramente por falta de água. Inspecionou a arrecadação, vazia, diversas garrafas de vinho empoeiradas e cobertas de teias de aranha, uns garrafões de azeite perdidos no chão e um forno caseiro que já tinha visto melhores dias. Na memória surgiu a recordação de umas belas férias de verão passadas naquele local ainda em adolescente, dias a comer pizzas e pães de alho cozidos por aquele forno. Seguiu caminho passando pela piscina abandonada e suja, já não devia ser utilizada há diversos anos, e pensar que já esteve cheia de adolescentes a brincar. Equacionou abandonar o local, decididamente não se encontrava ninguém e não queria ser apanhada no seu interior na ausência da tia. No entanto algo a fez espreitar os anexos situados junto ao pomar, relembrava-se que eram pequenos espaços transformados pelos filhos em locais de lazer. Apanhou os volumosos caracóis com um elástico e deslocou-se para o local. Várias maças apodrecidas ambientavam o chão do espaço, aproximou-se da janela do primeiro anexo, muito empoeirada, quase imperceptível de observar o seu interior, sujou os dedos para limpar parte do vidro. No interior vislumbrou em poucos segundos uma cama por fazer, uma almofada no chão e um portátil ligado a passar algo que não conseguia identificar. Assustou-se e afastou-se do vidro ao sentir um vulto a passar na sua frente, uma sombra que se movia com rapidez, o seu coração iniciou um batimento descompensado devido ao susto, quem seria? Afinal sempre estava alguém na vivenda. Seria a tia Fernanda naquele espaço?


Continua...

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