Diário de Maria

O Bairro

novembro 04, 2011Ricardo Santo

Um sincero pedido de desculpas a todos os leitores pela ausência prolongada


O estranho ignorou as investidas de Maria durante a noite, tinha detestado a forma como esta tinha desaparecido sem deixar rasto, nem sequer uma mensagem ou explicação, odiava ser ignorado e sendo assim não iria a correr ao primeiro apelo, mesmo sendo pela fêmea que deixava o seu sexo a latejar só com o poder do pensamento. Estava numa de ignorar as suas investidas e provocações, era hora de Maria aprender que não era somente um parceiro de queca ocasional, havia muito mais por detrás que revelava a sua essência. Sabia perfeitamente que era impossível segurar um animal com o apetite voraz como o de Maria, no entanto era hora de lhe fazer ver que não estaria sempre disponível, tinha cansado de ser o brinquedo predilecto da menina. A própria desculpa de se ter refugiado na casa dos pais na Guarda por algumas semanas também não o seduziu, as desculpas teriam de ser dadas de outra maneira. Tinha acabado de combinar uma saída ao Bairro Alto com alguns amigos, a noite lisboeta de Sábado estava bastante agradável e apetecível. Tinham combinado encontrar-se no bar Portas Largas, uma antiga casa de fados muito concorrida que nos últimos anos tinha mudado de gerência mantendo no entanto o atraente aspecto de tasca. Embrenhou-se pelo aglomerado de gente que enchia as vielas, muitos sorrisos, muito fumo e muitos copos, hormonas palpitantes a encher de vida o pitoresco recanto de Lisboa. Sérgio já o esperava à porta do bar com um par de amigos, conhecia-o desde criança tendo sido criados na mesma zona alfacinha. Era o típico desleixado que vivia à conta dos pais, nunca se esforçou muito nos estudos e muito menos arranjou trabalho, aos 30 anos continuava a viver no sótão e sem ter muitos projectos na vida. No entanto Sérgio era um genuíno apreciador da noite, sempre rodeado de amigos e especialmente de amigas, exactamente aquilo que o procurava naquela noite, uma presa para caçar. Cumprimentou Sérgio que já se encontrava num estado meio alterado ainda a noite era uma criança, o cheiro a cerveja era uma das suas imagens de marca. Muitos sorrisos, trocas de abraços e conversas de gajos ocuparam os minutos seguintes. O amigo não se lembrava da última vez que tinham estado juntos, tinha sido na passagem do ano em Vilamoura no Algarve numa pitoresca vivenda de uns amigos, uma madrugada regada com muito champanhe e algum sexo à mistura. A imagem da estonteante Anabela percorreu-lhe o pensamento num flash, uma grande foda para começar o ano.

Não demorou muito tempo para o estranho reparar na fêmea que se encontrava perdida no meio do grupo do Sérgio, passava meio desapercebida mas os seus longos cabelos pretos chamaram de imediato a sua atenção, como uma atracção magnética, adorava morenas. Trocaram olhares durante uns segundos, retraídos de início, pelo canto do olho, a morena correspondia ao olhar e sorria timidamente. O estranho observou-a com mais atenção, o longo cabelo preto perdia-se pelas costas esvoaçando ao sabor do vento, olhos pretos intensos e sedutores e uma cor de pele atraente onde despontavam alguns traços do bronzeado do último verão. Apesar da distância notou a falta de maquilhagem. Não devia medir mais de 1,70 m e possuía umas formas bastante interessantes, já não tinha o corpo de uma adolescente, provavelmente andava perto da casa dos 30. Naquela noite vestia um casaco de cabedal preto que escondia o verdadeiro tamanho do seu peito, as pernas estavam escondidas por umas inconfundíveis calças push-up da Salsa que moldava toda a sua silhueta, andavam muito na moda nestes últimos tempos. Calçava um sapato de salto alto preto que ainda realçava mais as curvas. O estranho não desgostou do que viu à primeira vista, a morena tinha potencial…
- Quem é a Morena?
- Quem?
- A miúda ali no grupo!
- Chama-se Tânia, veio cá passar o fim-de-semana. Julgo que é de Coimbra. Anda a estudar para enfermeira.
- Está acompanhada?
- Sim pelo João, o rapaz loiro perto dela, mas porque perguntas? Estás interessado? Não vais arranjar confusão, o gajo é um porreiro.
- Não stresses Sérgio, não vou arranjar confusão nenhuma, afinal de contas o que é se bebe aqui?
- Anda lá que eu pago um copo.
Passaram pelo grupo para se embrenharem no bar, enquanto Sérgio perguntava se alguém queria mais cerveja os olhares do estranho e de Tânia cruzaram-se novamente, os olhos da morena brilhavam, sentiu-se inebriado, não havia dúvidas que a noite ia prometer, Maria estava agora a anos-luz do seu pensamento.

Acabaram por se juntar ao grupo passados alguns minutos. Sérgio com uma cerveja em cada mão e o estranho com uma Smirnoff Ice bem gelada entre os dedos, detestava cerveja, a vodka fresca era a sua eleição. A noite estava animada e com o passar dos minutos o bairro foi-se enchendo de vida, perfeitos desconhecidos, conversas cruzadas, risos e muita bebida à mistura. O grupo que se tinha juntado naquela noite era peculiar, três putos na casa dos 20 anos ainda com borbulhas na cara, um rapaz de cabelo comprido com aspecto de cromo que não parava de teclar ao telemóvel, um outro macho que não se cansava de falar sobre musculação e de como tinha conseguido o seu corpo tonificado e o casal João e Tânia que não mostrava muita intimidade em público. O estranho levou a mão ao bolso das calças e retirou um maço de Lucky Strike colocando um cigarro na boca.  Antes que pudesse ter hipóteses de retirar o isqueiro já o cigarro estava a queimar. A morena tinha-se aproximado e gentilmente acendeu-o rematando com um sorriso maroto e um olhar provocador. João pareceu não se dar conta do acontecimento pois estava mais interessado na conversa que tinha nascido sobre a última derrota do FC Porto na Liga dos Campeões. O estranho agradeceu a amabilidade da sedutora morena que novamente lhe retribuiu um sorriso encantador. Apresentou-se como sendo amigo de longa data de Sérgio e aproveitou para meter conversa durante alguns minutos. Ficou a saber que Tânia morava de facto em Coimbra e que tinha vindo a Lisboa a um congresso da Ordem dos Enfermeiros que estava a decorrer nesse fim-de-semana na FIL no Parque das Nações. Não conhecia ninguém do grupo e tinha aceite o convite do namorado para jantarem e passar a noite no Bairro Alto antes de retornar a casa. No Domingo à noite teria de regressar a Coimbra de comboio e estavam a aproveitar a noite na capital. Tânia era dona de um olhar muito doce, longas pestanas pretas envolviam os seus expressivos movimentos. Os seus lábios finos davam-lhe um ar exótico e deveras sensual. Enquanto conversavam Tânia não largava uma ponta do cabelo, ora alisando alguns fios ora enrolando o cabelo longo entre os dedos, não usava nenhum anel e tinha as unhas bem arranjadas pintadas num tom de azul, parecia que hoje em dia era a cor predominante. O estranho sempre atento aos detalhes procurou em vão vislumbrar um fio ao pescoço ou um par de brincos, Tânia estava o mais natural possível. Gargalhadas ecoavam no meio do grupo, desta vez era o cabelo pintado de loiro do jogador Hulk do FC Porto que estava no centro das atenções. Mantiveram uma conversa amena e interessante por alguns minutos, num tom emotivo trocaram-se algumas trivialidades pessoais mas era notório que existia uma atracção mútua e um desejo de luxúria que não podia ser trabalhado naquele local, muitos menos com o namorado de Tânia a escassos metros. O telemóvel do estranho começou a tocar, no visor apareceu o nome Maria, desligou a chamada e voltou a guardar o aparelho no bolso das calças.

O primeiro passo para ultrapassar a situação foi estranhamente dado por Tânia. Chamando o namorado à parte transmitiu-lhe que se sentia algo indisposta e que queria regressar a casa, também não se estava a sentir muito confortável naquele ambiente de desconhecidos. João ficou surpreso porque o jantar tinha decorrido sem problemas mas compreendeu a situação e transmitiu ao grupo que iam embora. Tânia rematou referindo que não era necessário ele ir também, não fazia sentido, podia perfeitamente aproveitar a noite e ficar com os amigos mais algum tempo enquanto ela apanhava um táxi no fundo da rua e regressava ao apartamento. Ainda tinham o dia de Domingo para aproveitar juntos portanto ela ia descansar e ele ficava sem problema. João aceitou com relutância acabando por permanecer incentivado pelos amigos. Tânia acabou por se despedir de todos e agradeceu a descontraída visita ao bairro, esperava vê-los em breve a quando da sua próxima visita à capital. Ao despedir-se do estranho com dois beijos na face transmitiu-lhe a sua essência e sussurrou-lhe “Espero-te no fundo da rua, tens 15 minutos”. Tânia despediu-se do namorado e começou a descer a rua embrenhando-se no meio do aglomerado de gente que invadia o local. Em breve desapareceu de vista. Pouco mais de 10 minutos volvidos o estranho também abandonava o local…

Continua...

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20 comentários

  1. Bela reviravolta que aqui arranjaste, mas espero que não tenhas despachado a Maria, e que esta morena seja apenas um caso pontual.
    Fico a aguardar o desfecho da noite... e a volta da Maria, asap! hehehe
    É bom ter-te de volta, Diabinho ;)

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  2. Hum...gostei! Essa morena faz-me lembrar alguém ;)

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  3. Muito bom... aguardam-se os desenvolvimentos... paraste exactamente quando se começa a acelerar a respiração pelo evoluir da história.






    Beijos

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  4. Lolita

    Bem-vinda de regresso a este espaço, peço desculpas pelo afastamento prolongado e por ficar privada das aventuras que saem da minha mente. A reviravolta foi planeada e tem um intuito que mais à frente poderá acompanhar. A Maria não vai a lado nenhum não se preocupe, ela é afinal a heroina desta aventura. O desfecho da noite está a caminho...
    É bom estar de volta...

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  5. GataHari

    Obrigado pela passagem por aqui.
    Um dos intuitos principais da minha escrita é levar o leitor a identificar-se com as personagens e entrar no mundo que as envolvo, deixar-se ir ao longo da aventura e rever-se ao espelho. O que lês mexe com a tua mente e imaginação, ela depois encarrega-se de mexer com as sensações do teu corpo.
    Já agora a morena faz-te lembrar alguma gata arisca?

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  6. Me

    Obrigado pela visita.
    Todos os textos que aqui encontras são trabalhados de forma a levar o leitor a a receber sensações. A paragem na história naquele preciso momento foi necessária, como se fosse um aperitivo para o grande prato que se avizinha. O gostinho ficou ai na boca, agora delicia-te a aguardar pela continuação...

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  7. Ando tão embrenhada nas minhas coisas e tão sem tempo que nem tinha passado aqui. desconhecia o blog mas agradou-me bastante lê-lo. como adoro ler já estou a seguir o diário completo (de baixo para cima...lol). os meus parabéns pela genialidade e qualidade. não sou boa escritora mas sei reconhecer um quando o vejo

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  8. Mas se demorares muito... o gosto pode esmorecer!
    Depois... só voltando ao inicio.





    Beijos
    Bom fim de semana (parte dele)

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  9. Nem preciso de dizer que adorei o que li, pois tu sabes!

    É bom ter-te de volta, no seu real sentido da palavra =)

    O meu beijo.

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  10. Desculpas aceites... beijo expectante ;)

    [gosto sempre do que leio por aqui, mas isso tu já sabes! :)]




    Basium

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  11. Miss B

    Nunca é tarde para se descobrir seja o que for. Estamos sempre a tempo de novas descobertas, sensações e experiências certo?. Bem-vinda a este pequeno canto na blogosfera, espero que te sintas bem com as aventuras que por aqui encontras. Agradeço o cuidado que tiveste ao interiorizar como deve ser lido o Blog, de baixo para cima, só assim consegues entender todos os contornos do enredo, nem todos os leitores o fazem e ganhaste uns pontos por esse interesse. Fico agradecido pelas tuas palavras sobre a minha escrita apesar de não concordar em pleno.

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  12. intimidades

    Obrigado pela visita, ainda bem que gostaste.
    Continuação de bons posts no teu cantinho.

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  13. Me

    E quem disse que voltar ao início não é delicioso? Existem coisas que foram feitas para repetir não concorda? Prometo que não demoro para não esmorecer esse gostinho.

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  14. EROTICAMENTE FALANDO

    Nem vou agradecer a tua visita a este canto, és sempre bem vinda e a porta está sempre aberta. É muito bom estar de volta após este tempo de ausência, confesso que ainda estou meio enferrujado na escrita. Por vezes é bom parar e dar descanso a certas coisas, existe muita coisa para descobrir lá fora...

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  15. Venus in red

    Obrigado pela visita neste meu regresso. Mais uma vez um pedido de desculpas não é suficiente para alguém que aprecia as aventuras que por aqui encontra. O show segue dentro de momentos...

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  16. Sim, ninguém disse que voltar ao inicio não é bom... há coisas que deveriam repetir-se sempre até ao limite do infinito.




    Beijo

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  17. Adorava voltar ao ínicio..

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  18. Hum. Podias ter feito essa Tânia um bocadinho mais esperta. Para quê despachar o namorado? Seria muito mais interessante ler como ela geria os dois em simultâneo... mas pronto, vou continuar a ler.

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