Diário de Maria

O Apartamento

novembro 21, 2011Ricardo Santo

 Imagem roubada daqui


O estranho chegou ao bairro de Alvalade já amanhecia na capital, as ruas estavam totalmente desertas aquela hora da madrugada, o tempo estava a piorar e iria certamente chover em breve. Apagou o cigarro no chão e entrou no edifício subindo lentamente pelas escadas até ao segundo andar. Ignorou o elevador, não lhe apetecia esperar. Ao chegar ao patamar notou algo de estranho, um vulto estava sentado a dormir junto da sua porta, ligeiramente tapado por um casaco, não necessitou de muitos segundos para identificar a bizarra personagem... Maria. Ficou incrédulo com a situação, que faria a criatura ali deitada aquela hora da madrugada? Ainda por cima com o frio que se fazia sentir. Pelos vistos não a conseguia afastar da sua vida assim tão facilmente, a sua persistência era poderosa e quando metia algo na cabeça dava-lhe para estas loucuras, as gajas tinham destas coisas. Tinha de reconhecer que o teor da SMS recebida era para ser levado à letra, a perseverança feminina era algo de transcendente. Retirou a chave do bolso do casaco de ganga e abriu a porta evitando fazer barulho, do outro lado um miado deu-lhe os bons dias, a gata como sempre esperava pelo seu regresso a casa e ronronava de satisfação. Mirou Maria sentada no chão, pernas encolhidas, cabeça apoiada na ombreira da porta, tinha mudado de visual durante a sua ausência. O cabelo castanho encaracolado que outrora lhe escorria eloquente pelas costas tinha dado lugar a um visual mais activo, num cabelo preto brilhante e escorrido pela zona dos ombros. No inicio estranhava-se mas depois entranhava-se de tão reluzente que era, a mudança radical agradava-lhe ao olhar, um toque mais jovial e diferente mas a mesma sensualidade encantadora.

Abriu a porta, baixou-se e pegou Maria ao colo colocando um braço por debaixo dos seus joelhos e outro a meio das costas em apoio. A fêmea aceitou os braços fortes e o colo quente do parceiro, abraçando-o instintivamente em volta do pescoço. O estranho sentiu a sua essência fascinante, o perfume que o devorava desde o primeiro choque no Elevador, enquanto entrava no apartamento sentiu-se inebriado por aquela fragrância adocicada que o assaltava, mexia com ele de forma sublime, não conseguia ficar indiferente. Com a perna fechou a porta atrás de si caminhando pelo longo e estreito corredor rumo ao quarto principal. O apartamento estava totalmente às escuras, somente inundado por uma pequena claridade que ameaçava invadir uma das janelas naquela manhã. Maria mantinha-se aninhada a dormir, elevada no ar, de cabeça apoiada no ombro do estranho, sentiu por momentos a pulseira Pandora a roçar no seu pescoço, fria, fazendo-o arrepiar de imediato. No ar a cada passo balançava o pendente de prata com uma elegante borboleta de asas bem abertas. Deitou Maria gentilmente de lado na cama, as pernas foram instintivamente recolhidas, dormia como uma criança. Afagou-lhe o cabelo que lhe caia pelo semblante, notou rímel preto escorrido pela face, sinal de choro recente, passou um dedo levemente pelos lábios carnudos. Perante a fraca luz não conseguiu identificar a cor da sombra que a fêmea aplicara, estava tão desbotada que era impossível reconhecer. Retirou o casaco de malha branco que a envolvia deixando-o perdido na pequena poltrona presente no quarto. Uma de cada vez retirou as botas que lhe davam quase pelo joelho, umas Merrell de camurça azul clara muito desportivas. Correu o fecho soltando uma bota, depois outra, deixando transparecer os delicados pés e as meias brancas que trazia calçadas, eram meia perna, muito sensuais por sinal. Navegou pelo delicado tecido com a mão, sentindo o áspero tacto, trepando por território conhecido, desde o pé até ao final da meia que terminava bem junto da virilha. Levantou um pouco o vestido azul observando a terminação da meia com mais pormenor, o efeito semi-rendado, as cuecas de fio dental branco a despontarem. Retirou com jeito a primeira meia, sentindo a leveza da pele cuidada de Maria que se contorceu na cama ao sentir o seu toque, notou que desta vez não tinha as unhas dos pés pintadas. Retirou a segunda meia pelo mesmo processo e retraiu-se em mais avanços de forma a evitar que a fêmea acordasse. Pegou no pendente de prata que esta trazia ao pescoço, a famosa borboleta que tinha visto pela primeira vez no Pub. Tapou Maria com o edredão de penas, afagou-lhe a face mais uma vez mimando-a com carinho, tinha sentido saudades, ficou uns segundos a contemplar a sua beleza...

Continua...

You Might Also Like

15 comentários

  1. Ohh, tão fofo!! O Estranho romântico! Quem diria!

    Ok, continuas a surpreender. Congratulations, my dear.

    ;)

    ResponderEliminar
  2. Temos um perfeito cavalheiro...
    O estranho também se estranha... e ele mesmo!
    Detalhes, o que não falta nesta primeira volta de Maria.


    Beijos

    ResponderEliminar
  3. (vou ser longa)

    Começa a denotar-se a tua escrita a voltar no seu melhor. É absolutamente incrível como quando descreves Maria e o Estranho ela (ela a tua escrita) se torna delicada, romântica e repleta da tal sensualidade latente que (me) faltava quando te li no teu regresso.

    Agora sim. Agora estive no quarto e vi e senti as sensações que descreves. Só uma palavra me incomodou em todo o teu conto: fêmea. Além de a repetires por várias vezes, não se enquadra no contexto delicado que pretendes descrever.

    (Desculpa a franqueza, sabes como sou e claro, a minha opinião vale o que vale, é apenas a minha opinião)!

    De resto, é sublime. Agora sim regressaste e no teu melhor. A simbiose está lá de novo e eu estou aqui, deliciada.

    Beijo,

    P.S. Adorei o pormenor da Pandora!!!

    ResponderEliminar
  4. Tenho uma questão: o Estranho vai fazer a Maria apaixonar-se por ele?

    ResponderEliminar
  5. Lolita

    O Estranho é um poço de mistérios, umas vezes mostra uma face, outras vezes surpreende apresentando outra que nunca tinha sido revelada. É um desafio para mim próprio, fazer evoluir as personagens e tocar em quem está desse lado...

    Espero pelo teu regresso...
    Beijo

    ResponderEliminar
  6. Me

    Os detalhes fazem parte da narrativa, como se fosse uma assinatura do escritor. Neste caso não vivo sem eles. Os textos não vivem somente de erotismo ou hard-core, conjugam sempre muita descrição, pormenor e detalhe, são a essência de tudo o resto. A personagem do Estranho é estranho por natureza, conjuga sensualidade, mistério e por alguma razão nem sequer tem nome.

    Espero pelo teu regresso na continuação...
    Beijo

    ResponderEliminar
  7. Stargazer

    A escrita é algo que se cultiva, quanto mais se escreve mais fácil a escrita flui e maior é a intensidade das palavras que se transmitem. Estar quase 8 meses sem escrever deixou-me algo enferrujado e como já tinha referido não é fácil voltar a entrar na coisa. Necessitei de estudo para efectuar este regresso, tive de reler todos os contos, voltar a identificar todas as personagens e coloca-las todas dentro de mim, voltar a ser diversas pessoas ao mesmo tempo.

    Não consigo explicar essa perspectiva que tens da simbiose de Maria e do Estranho no mesmo conto. Como escritor não consigo identificar a diferença na narrativa, acredita que nem sempre é fácil colocar-me desse lado e ler-me como um simples leitor.

    Obrigado por mais uma dica, sabes que vou apanhando todas pelo caminho ;)

    Beijo

    ResponderEliminar
  8. Uma leitora

    Será que ambos não estão já apaixonados um pelo outro? Depois de tantas aventuras será somente o prazer carnal que os une e que os arrebata quando se encontram? Porque razão terá o estranho ficado tão magoado com a ausência de Maria?

    Beijo

    ResponderEliminar
  9. Então se estão apaixonados um pelo outro, porquê as aventuras com outras pessoas? Não sendo céptica, vou aguardar pela continuação.

    ResponderEliminar
  10. Uma leitora

    Os contos não podem viver somente em redor de duas personagens, rapidamente as aventuras se tornariam monótonas e repetitivas, não é esse o intuito do Diário de Maria. A bem da verdade o estranho era somente mais uma personagem que iria entrar e sair da vida de Maria mas por enquanto ainda se mantém por cá.

    Beijo

    ResponderEliminar
  11. Adorei..tanto carinho, romantismo, sensualidade e cumplicidade..que as tuas palavras transpiram ;)

    Só pode ser AMOR entre os dois :):)
    O Estranho não pode sair da vida de Maria, sem ele não era a mesma coisa!
    Adivinha-se outro grande conto..
    Espero ansiosa :)

    Ando por aqui à pouco mas estou a gostar bastante, comecei por ler do inicio :( e só depois me apercebi que era ao contrário :)
    Tenho lido 2 contos por dia (+/-) não dá para ser mais..não se aguenta ;)

    Senão o que se passa cá dentro ainda me faz explodir em chamas!

    Beijos..

    ResponderEliminar
  12. Black Angel

    Sabe tão bem trocar as voltas aos leitores, estarem à espera de algo habitual e afinal quando se embrenham na narrativa sai algo efectivamente diferente, inesperado, saído do nada. Sabe deliciosamente bem entrar por um mundo mais romântico e sensual onde o Estranho consegue transpirar outro tipo de intensidade. O Estranho faz parte do Diário de Maria, não faz neste momento qualquer sentido ele desaparecer das aventuras. Por vezes nem acredita que eu próprio tenho dificuldades de saber quem é Maria e quem é o Estranho tal a mistura e química existente entre os dois.

    Dou-te os parabéns por perderes o teu tempo a navegar pelas palavras que saem da minha mente e imaginação. Interiorizas-te o blog lendo do início e tens outra percepção sobre cada conto e o enredo das personagens. Não é qualquer leitor que o faz e mereces a minha apreciação por esse facto. Ainda bem que as minhas palavras te fazer viajar e percorrer caminhos luxuriosos.

    E quem disse que explodir em chamas é mau?
    Aproveita bem...

    Beijo

    ResponderEliminar
  13. QUEM DISSE..QUE ERA MAU?!
    Eu?! :)
    Adoro ficar nesse ponto..de rebuçado;)
    E depois ser saboreada.. como se de um se tratasse..

    Citando uma da tuas bandas favoritas (pelo que li) "there is a fire inside this heart and a riot about to explode in flames.."

    Beijos..on fire

    ResponderEliminar
  14. Ah..excelente a escolha musical..;)
    Faz-me viajar...

    ResponderEliminar
  15. Black Angel

    Não se deixe consumir por essa inquietação que a percorre. Os devaneios aqui encontrados podem ser uma excelente inspiração, aproveite...

    ResponderEliminar

Popular Posts

Tumblr

Contact